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Metamorfose Ambulante

“Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu vou lhe desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo”

Raul Seixas…

Nau Catrineta

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija, 
Que a não puderam tragar.

Deitaram sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

- "Sobe, sobe, marujinho,
  Àquele mastro real,
  Vê se vês terras de Espanha,
  As praias de Portugal!"

- "Não vejo terras de Espanha,
  Nem praias de Portugal;
  Vejo sete espadas nuas
  Que estão para te matar." 

- "Acima, acima, gageiro,
  Acima ao tope real!
  Olha se enxergas Espanha,
  Areias de Portugal!"

- "Alvíssaras, capitão,
  Meu capitão general!
  Já vejo terras de Espanha,
  Areias de Portugal!"
  Mais enxergo três meninas,
  Debaixo de um laranjal:
  Uma sentada a coser,
  Outra na roca a fiar,
  A mais formosa de todas
  Está no meio a chorar."

- "Todas três são minhas filhas,
  Oh! quem mas dera abraçar!
  A mais formosa de todas
  Contigo a hei-se casar."

- "A vossa filha não quero,
  Que vos custou a criar."

- "Dar-te-ei tanto dinheiro
  Que o não possas contar."

- "Não quero o vosso dinheiro
  Pois vos custou a ganhar."

- "Dou-te o meu cavalo branco,
  Que nunca houve outro igual."

- "Guardai o vosso cavalo,
  Que vos custou a ensinar."

- "Dar-te-ei a Catrineta,
  Para nela navegar."

- "Não quero a Nau Catrineta,
  Que a não sei governar."

- "Que queres tu, meu gageiro,
  Que alvíssaras te hei-de dar?"

- "Capitão, quero a tua alma,
  Para comigo a levar!"

- "Renego de ti, demónio,
  Que me estavas a tentar!
  A minha alma é só de Deus;
  O corpo dou eu ao mar."

Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;

E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.

Almeida Garrett, Romanceiro 

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O que é um amigo de verdade?

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Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

Vinicius de Moraes